Com medo no México
sobre medos antigos e medos novos
1.
Em 2024, passei dez dias na Cidade do México, a realização de um sonho de adolescência. Puxando pela memória, acho que começou nos anos 1990, quando minha avó visitou o país. Ela era uma amante de cacarecos e trouxe da viagem uma mala com bichinhos, vasos e caveiras de cerâmica elegantemente vestidas. A mais marcante dessas caveiras (ou katrinas, como os mexicanos chamam) tinha uns 60 centímetros de altura, ostentava um chapéu de abas largas e segurava uma sombrinha em uma das mãos. Enfeitou a sala da casa da minha avó por décadas — sobreviveu à minha avó, inclusive.
Como não se encantar com uma cultura que se diverte com a morte desse jeito?
Pouco depois disso, vivi uma obsessão com a pintora mexicana Frida Kahlo. Sua autenticidade, sua beleza, sua arte íntima e simbólica e sua bissexualidade declarada em um tempo sem referências formaram um caldo sedutor para a jovem interiorana que eu era. Cresceu o desejo de pisar o solo mexicano e conhecer a Casa Azul, onde Frida viveu amores, produziu seu trabalho, adoeceu e morreu.
Um par de décadas depois pisei na Cidade do México.
2.
Em um dos dias da viagem, minha esposa e eu visitamos o Templo Mayor. Plantado entre uma catedral católica e ambulantes que vendem de tacos a calcinhas, o Templo Mayor foi um centro religioso reconstruído seis vezes — a primeira em 1325. No coração de Tenochtitlán, a capital do Império Asteca ou Mexica, o templo era um centro de poder, sede de rituais e até sacrifícios humanos.
Hoje, o Templo Mayor combina galerias de pedra ao ar livre, em que os visitantes podem ver camadas de ruínas sobrepostas, e um edifício moderno com um acervo arqueológico impressionante (como grande parte do que vi na cidade, aliás). No dia da visita, sob um mormaço intenso, passeamos sem pressa pelas galerias. Depois, nos demoramos diante de colheres de cerâmica, colares e esculturas milenares expostos no edifício, no puro suco da lentidão cálida das férias.
Enquanto nos arrastávamos pelos corredores, um alarme de incêndio cantou baixinho. Despertou minha atenção, claro, mas soou mais como um disparo que não devia ter acontecido. Continuamos o passeio. Pouco depois, notamos um movimento estranho no andar abaixo. Um grupo de pessoas discutia algum assunto. Ainda tentávamos entender o que se passava quando um segurança do museu se dirigiu aos visitantes do andar: “Fiquem calmos e se reúnam neste canto. Se mantiverem a calma, será melhor”.
O segurança era jovem, vestia um quepe grande demais para a sua cabeça miúda e tinha um olhar inquieto. Seguimos suas orientações e nos aproximamos dos outros visitantes em um canto do andar. O grupo permaneceu em silêncio. O que teria acontecido? Eu pensava em uma ameaça do narcotráfico, sobre o qual vinha lendo nos últimos dias.
Minutos se passaram até que o segurança pediu para descermos as escadas do edifício em direção à área externa. Obedecemos. Integramos uma fila longa e nos unimos às pessoas que se amontoavam no pátio do museu. Parecia o público de um show prestes a começar, mas, ao contrário de música, o que prevalecia era o silêncio entrecortado por sussurros. As pessoas se olhavam em busca de respostas, e uma tensão sobrevoava nossas cabeças.
Dei a mão para minha esposa e pensei em não voltar, em morrer no México. Em deixar meus filhos e tantos sonhos para trás. Pensei em correr. Para onde correria se fosse preciso? Que medida se toma em um momento de emergência?
Então um homem careca de camisa clara se colocou diante do grupo. “Um aviso de terremoto soou quinze minutos atrás. Mantivemos vocês aqui por conta disso, mas não tivemos confirmação do sismo, então vamos liberá-los. Podem continuar a visita, se quiserem, ou deixar o museu. Vocês que sabem”.
Minha esposa e eu decidimos seguir para o hotel. A pé, em uma caminhada que levou 30 minutos. Andamos rápido pelo meio da rua, que eu imaginava ser mais seguro caso a terra tremesse e os prédios começassem a se desmanchar sobre nós. Paramos apenas uma vez, em um Oxxo, para comprar duas cervejas. Era extremamente necessário.
3.
Eu não sabia que o México sofria com terremotos, o que foi uma tremenda ignorância. Todos os lugares em que circulávamos mostravam uma placa do que fazer em caso de terremoto, eu só não tinha reparado nelas.
Descobri que o México está instalado no encontro entre cinco placas tectônicas e soma milhares de sismos todos os anos. Em 1985, um terremoto de magnitude 8,1 matou 10 mil pessoas e deixou 100 mil desalojadas. No começo de 2024, registraram um terremoto de magnitude 6,1, e antes disso, em 2017, um de 7,1.
Depois da experiência no Templo Mayor foi difícil continuar a viagem do mesmo jeito. Naquela mesma noite, um carro que passava na rua do hotel com uma sirene alta me arrancou do sono. Saltei da cama com o coração a mil. Passei a habitar um estado de alerta para um novo aviso de terremoto.
Eu tinha superado alguns medos para chegar até a Cidade do México — da viagem de avião, de deixar meus filhos em outro país, de estar em uma terra desconhecida. São medos familiares para mim, que tratei nos meses anteriores à viagem, lapidando-os com uma marreta mental no intuito de que ficassem menores, mais confortáveis de levar na mala.
Deparar com um temor novo foi um desafio de outro nível, que não deixou de me acompanhar enquanto eu visitava as atrações da cidade, experimentava as comidas e bebidas mexicanas, vivia a viagem. A sensação de fruir aqueles dias teve que coexistir com o choque de carregar um medo novo.
4.
Quase um ano depois, tenho vivido novas experiências com o medo. Estou diante da perspectiva de realizar um grande desejo, e essa concretização vem cercada de inseguranças. Os medos novos parecem alterar o ambiente, trazendo à tona temores antigos, como o pé que pisa a beira do mar e coloca porções de areia escura em suspensão, deixando a água turva, difícil de enxergar.
Dessa vez entendi que, ao contrário do que sempre espero, meus medos nunca vão desaparecer. Vão caminhar comigo nas malas, por vezes ficar mais leves e ocupar apenas espaço nos bolsos. De tempos em tempos vão pesar, como se fosse o primeiro dia em que eu tivesse contato com o sentimento; em outros, vão diminuir sensivelmente, se renovar.
Agora entendo que é na companhia dos medos que aprendo a lidar com eles, e lido com eles seguindo o conselho do poeta austríaco Rainer Maria Rilke:
“Fiz alguma coisa contra o medo. Fiquei toda a noite sentado a escrever”.
O que me consola é saber que do lugar de onde vem o medo vem também a coragem.




